XIX Congress of the Iberoamerican Society of Digital Graphics, 

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BASES EPISTEMOLÓGICAS PARA UMA ABORDAGEM CONTEMPORÂNEA AO ENSINO DE PROJETO
Pedro Gabriel de Sousa Lima, Débora de Oliveira Sousa, Neliza Maria e Silva Romcy

Last modified: 2015-08-27

Abstract


Introdução

A tecnologia digital vem transformando o processo de projeto e, consequentemente, afetando o modo como  a prática projetual e o ensino estão sendo abordados. O arquiteto contemporâneo se posiciona como um articulador de informações e processos, e esse modo de pensar  requer novos paradigmas de projeto (Oxman,2006). Nesse contexto, o artigo se propõe a refletir sobre a constituição de um possível paradigma epistemológico para o ensino de projeto nas universidades brasileiras.

Coloca-se como relevante os novos processos produtivos de arquitetura advindos da crescente inserção dos meios digitais, cuja atuação tem promovido grandes avanços no modo de projetar. Segundo Tramontano e Soares (2012), o uso dos meios digitais integrados ao processo por meio da parametrização possibilita a concepção de formas cada vez mais complexas e ainda assim possíveis de serem produzidas em série na indústria, com o uso de máquinas de controle numérico ,ou máquinas CNC (Computer Numerically Controled).

O desenvolvimento tecnológico permitiu uma maior consciência do objeto por parte do profissional e uma antecipação dos possíveis problemas de sua execução. O levantamento de possibilidades pode ser realizado pelo sistema através da análise dos dados disponíveis, auxiliando o arquiteto em sua tomada de decisão, que agora se embasa em fatores lógicos e fundamentados que corroboram para a manifestação da forma.

Na busca de uma compreensão da mudança de paradigmas que o ensino de design, arquitetura e urbanismo vive atualmente, estabeleceu-se uma definição sobre a Parametrização: "corresponde a um sistema constituído por elementos que se relacionam e sofrem um auto ajuste quando uma variável é modificada. Esse sistema pode ser representado através de um modelo conceitual composto por variáveis e operadores matemáticos lógicos que irão definir uma determinada função'' (Woodburry, 2010). É fundamental ainda o entendimento de prototipagem e fabricação digital que, a grosso modo, "[...] referem-se a métodos que permitem a transição do modelo digital para o físico de maneira automatizada. Considerando que o produto final pode ser uma maquete ou um elemento construtivo, ou ainda um protótipo "(Regiane Pupo, 2009). Essa abordagem vem constituindo um novo paradigma com definições de bases teóricas próprias introduzindo um processo de projeto fundado em parâmetros - variáveis e operações – que serão gerenciados pelo arquiteto para gerar formas dentro de infinitas possibilidades existentes para cada problema.

Pretende-se determinar quais seriam as bases teóricas possíveis a uma abordagem paramétrica no ensino projetual, pois "[...] a função teorizante é essencial na arquitetura, uma vez que a renovação depende, em primeiro lugar, do estádio teórico." (Moles, 1972). Com esse embasamento, busca-se definir diretrizes para as mudanças metodológicas no ensino, permitindo que este se adeque a essa nova relação existente entre o produto e o modo como ele é concebido.

Somado a isto, almeja-se apresentar estratégias para incorporar o uso de meios digitais nas disciplinas, incentivando a introdução de temas relacionados a outros modos de representar o objeto do projeto. A representação deixa de se mostrar como simbologia de um projeto pré-concebido e passa a expor informações não acessíveis anteriormente. Essa abordagem deve ainda ser ampliada de modo que não se limite à disciplina de projeto, embora seja a mais impactada, mas sejam inseridas em um conjunto maior de disciplinas e que possibilitem  diversas estratégias de ensino. O uso do enfoque paramético de modo não isolado poderia auxiliar na   aceleração  da   difusão,   adoção   e   amadurecimento dessa  proposta projetual.


Processos Metodológicos

A Bauhaus foi uma escola de arte racionalista que surgiu no contexto histórico do entre-guerras (1919-1933) e de dilaceração pelo conflito de classes. Tal clima propiciou uma oposição ao irracionalismo político que aumentava cada vez mais as contradições sociais. Essa oposição se apresentou na arquitetura por eles ensinada e produzida, que se utilizou dos conceitos racionais e funcionais para disseminar e dar base aos pretextos modernistas. "O que a Bauhaus propôs, na prática, foi uma comunidade de tôdas as formas de trabalho criativo, e em sua lógica, interdependência de um para com o outro no mundo moderno." (Gropius, 1972). Teve seu embasamento em movimentos anteriores como o Arts and Crafts e o Art Nouveau  que valorizavam o artesanato e as artes, entretanto, deveriam ser desenvolvidos de modo que possibilitassem a produção em larga escala, símbolo da revolução industrial. A Bauhaus conduziu a teoria do design moderno, através da integração de arte e design , com o desejo de introduzir inovações referentes à formas, materiais utilizados e orientações para projetar em uma era de industrialização (Wingler, 1969; Naylor, 1985).

As diretrizes ensinadas na escola se disseminaram por todo o mundo e fomentaram os que hoje são tidos como clássicos do design e exemplo de qualidade formal em arquitetura. Por meio da caracterização dos aspectos projetuais, pedagógicos e construtivos dessa escola, é possível enxergar o papel da evolução tecnológica como fator importante no rompimento de paradigmas já ultrapassados, à época e atualmente. Posto isso, foi identificada uma brusca mudança no método de ensino de arquitetura que a escola proporcionou, “através da emergência de novos materiais […], cujas consequências se fazem sentir na própria forma do objeto de consumo, a ferramenta, o objeto caseiro, a habitação, etc.” (Moles, 1972). Tais fatores serão estimados como processo histórico a serem levados em consideração no presente artigo, analisando como se deu esse rompimento com o passado no modo de ensinar arquitetura e suas consequências na qualidade formal dos projetos e na sociedade.

Um dos grandes direcionadores para tal rompimento foram as forças produtivas. O uso de novas tecnologias e novos materiais como metal cromado, aço, vidro e suas utilizações na produção em larga escala impulsionaram uma renovação estética e, por consequência, uma nova metodologia de projeto. De modo similar, a tecnologia utilizada hoje permite possibilidades não antes imagináveis, através desses novos recursos digitais como a parametrização e da fabricação digital.

Um novo pensamento conceitual e processual, e as novas possibilidades que este gera, só podem ser elaborados quando possuem um respaldo tecnológico de desenvolvimento de projeto (softwares, fabricação digital, simuladores) e técnicas construtivas apropriadas. Ainda assim, quando essas variáveis são atendidas, existe a resistência contra conceitos inovadores que reestabelecem paradigmas e pensamentos. Nesse contexto de  problemas de adaptabilidade e inércia do sistema educativo (Oxman,2008), surge uma reflexão sobre os desafios da mudança para o ensino com bases paramétricas.

Todavia, para que ocorra um aproveitamento mais expressivo da inserção do conhecimento paramétrico é preciso considerar os aspectos cognitivos envolvidos no processo de aprendizagem.  Donald Schön (2000) discorre sobre um conceito de ensino onde a melhoria na performance educacional  é conseguida através do ensino reflexivo. Tal formação se baseia na premissa de que  o docente deve propiciar situações - problema para que o aluno possa fazer uma reflexão sobre o assunto  e buscar, através da orientação correta, a solução de forma autossuficiente. Essa autonomia intelectual difere do ensino tradicional onde o professor era detentor de todo o conhecimento e cabia o aluno esperar de forma passiva pela informação.

As modificações educacionais necessárias ultrapassam a simples incorporação de novas disciplinas, se fazendo necessária uma análise dos métodos de ensino e da estruturação do curso como um todo. O currículo para Sacristan (2000) “reflete o conflito entre interesses dentro de uma sociedade e os valores dominantes que regem os processos educativos". Sendo assim, a reestruturação do pensamento projetual carece de uma reorganização das matrizes pedagógicas.

Resultados

Com esse estudo busca-se encontrar o embasamento para reestruturação dos Projetos Pedagógicos dos cursos de design, arquitetura e urbanismo formando um profissional consciente sobre a sua nova postura diante da prática projetual. Este deve compreender a ato de criação a partir de uma lógica paramétrica e sistêmica. Entendendo o projeto como um processo de informação (Morris Asimow, 1962) cabe ao projetista gerenciar tais informações.

Discussão

Espera-se, ainda, proporcionar uma melhor compreensão de que estamos vivendo uma nova era na produção projetual advinda da evolução tecnológica, que traz uma reflexão crítica a respeito da necessidade de repensarmos a didática das escolas de arquitetura, urbanismo e design. Deseja-se destacar a importância das modificações curriculares não como meras acompanhantes de modismos, mas sim com os reais ganhos que a inserção dos novos meios digitais possibilita. Além dos ganhos de rapidez no desenvolvimento e aumento da possibilidade criativa, eles proporcionam uma melhoria qualitativa no produto final a ser desenvolvido.

Keywords


Parametrização;Ensino; Fabricação Digital; Bauhaus; Meios Digitais

References


ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Editora Companhia das Letras,1992.

ASIMOW, Morris. Introduction to Design. Englewood Cliffs, N.J., Prentice-Hall, 1962.

KOWALTOWSKI, Doris K. ; MOREIRA, Daniel de Carvalho ; PETRECHE, João R. D.; FABRÍCIO, Márcio M.. O Processo de Projeto em Arquitetura da Teoria à Tecnologia. Editora: Oficina de textos,2011.

MOLES, Abraham A. O Kitsch: A Arte da Felicidade. São Paulo, Perspectvia, Ed. da Universidade de São Paulo, 1972. Tradução de Sérgio Miceli.

NAYLOR, G. The Bauhaus Reassessed: Sources and Design Theory. London: Herbert Press, 1985.

OXMAN, Rivka. Digital Architecture as a Challenge for Design Pedagogy: Theory, Knowledge, Models and Medium. Design Studies (Vol. 9 Issue 2. pp. 99-120 ),2008.

OXMAN, Rivka. Educating the Digital Design Thinker - What do We Teach When We Teach Design, 2006.

PUPO, Regiane Trevisan. Inserção da prototipagem e fabricação digitais no processo de projeto: um novo desafio para o ensino de arquitetura. Campinas, SP,2009.

SACRISTAN, J. Gimeno. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed, 2000.

SCHÖN,Donald Alan. The reflective practitioner: how professionals think in action. Basic Books, New York, 1983.

SCHÖN, Donald Alan. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre, Artes Médicas. 2000. Versão brasileira.

WOODBURY, Robert. Elements of parametric design. Routledge, 2010.

WINGLER, Hans (1969). The Bauhaus: Weimar Dessau Berlin Chicago. Massachusetts Institute of Technology, 1969.


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